Um Salto

um salto 2

Andava pelo sereno caminho circundado por árvores. A única luz presente era projetada pela lua, deixando tudo frio, denso, monocromático. Aquele era o caminho que percorria para chegar em casa após um dia de labuta. Convencido de estar despido de todos os medos e superstições deste mundo; estava completamente errado e estava prestes a descobrir.

Comigo carregava uma bolsa pesada, e que parecia mais pesada a cada passo. Meus pés calejavam, minhas mãos doíam, e se pudesse dormiria ali mesmo, à luz de um quadro de estrelas me observando no pasto frio ao relento. Não o fiz. Aquela talvez tenha sido a melhor decisão que já tomei. As vezes seus pés doem tanto de andar que é como se não doessem mais. Difícil de explicar.

Faltavam alguns metros para chegar em casa. Por perto já havia uma leve iluminação produzida artificialmente por coisas de vidro e metal envoltas numa coisa grande de cimento. Acho que as pessoas chamam isso de poste, mas o nome não me importa, nem importaria; o que importava era o que aquela luz exibia: alguém sentado na beirada da sacada. Eu já havia visto muitas pessoas sentadas de forma semelhante, mas aquilo parecia diferente. Não parecia alguém que admirava o campo ou analisasse os passantes. Algo me chamou atenção naquele rosto. Não costumo falar com estranhos nem dar muita atenção a quem vejo pelo caminho, mas eu precisava ir até lá para entender o que significava aquela expressão.

– Olá. – Disse, contido.

– Ciao. – Me respondeu ele, em italiano.

– Está tudo bem com o senhor? – E neste momento eu vi que ele segurava uma carta. Podia ser qualquer tipo de carta: de amor, de tristeza, de saudade, mas eu não sabia.

– Porque você se importa se está tudo bem? – e ele me deu um sorriso amargo.

Hesitei. Não havia uma resposta pronta na manga para aquela pergunta. Quem é que em sã consciência responderia com uma pergunta dessas?

– Oras, sejamos francos. Você vê alguém sentado na beirada da sacada, a um salto da morte, e decide ver se está tudo bem com a pessoa?

– Sim. Acho que é isso que as pessoas fazem, não? Porque o senhor está sentado aqui então?

– Eu vou me jogar daqui. – e então ele sorriu. E foi só então que eu entendi o motivo daquele olhar estranho.

Eu não sabia o que responder. Nunca fui bom em retórica, mas era essa era a hora de arriscar.

– E porque você quer se matar?

– E porque você quer viver?

– Oras, viver é ótimo.

– A vida é cheia de problemas, preocupações, tristeza, pensamentos, sentimentos.

– Claro que é. A vida não é um caminho reto, faz várias curvas para chegar ao ponto final.

– Sim, eu só decidi pegar um atalho. As vezes eu acho que seria feliz se fosse uma pedra. Sem preocupação, sem ter de pensar, de decidir, de fazer qualquer coisa, com o bônus de poder conhecer qualquer lugar do mundo, afinal as pedras estão por toda parte.

– E como você saberia que é feliz sendo uma pedra se você não pudesse pensar, sentir ou se mover?

– É, você fez um ponto, mas eu ainda não mudei de ideia. Eu só tenho tristeza a oferecer.

Neste momento fiz o mais arriscado de todos os atos: sentei-me ao lado daquele homem na beira da sacada, admirando uma queda de pelo menos quinze metros. Foi quando percebi que aquele homem começou a ficar confuso.

– Porque você não entra e tomamos um café? Minha esposa está me esperando lá e você seria muito bem vindo.

– Eu não estou muito a fim de beber café agora, se não se importa. Na verdade não estou a fim de nada. Você sabe o que é ter depressão? Eu falo da depressão de verdade, não daquelas pessoas que tem surtos e começam a se achar depressivas.

– Pra ser sincero, não. – Ele se balançava para frente e para trás.

– É como uma larva, pequena e inofensiva, que vai comendo aos poucos a felicidade. Vai pegando cada lembrança boa e transformando em ruim até que você não lembre mais o que é ser feliz. É como cair lentamente na escuridão dos seus próprios pensamentos.

– Mas você admite com isso que a felicidade existe, não?

– Talvez ela tenha existido, mas agora é só tristeza.

– E como você pode ter certeza? A felicidade e a tristeza caminham juntas. Ninguém pode ser feliz sem ser triste, entende?

– Aonde você quer chegar com isso?

– O ponto é que a felicidade é quase sempre baseada na tristeza. Se as pessoas fossem felizes o tempo todo como elas saberiam apreciar esse momento doce? Você só lembra o quanto uma parte do corpo é importante quando machuca ela, principalmente se for o mindinho do pé.

– Faz sentido, mas você não vai me convencer de que no fundo eu sou uma pessoa feliz.

– Eu não preciso. – E neste momento eu sorri. – Você já chegou a essa conclusão, não? Por mais difícil que seja, não foi isso mesmo?

– Sim… e não. Você me deixa confuso.

– Sim, a dúvida é fantástica, não? Você pode estar aqui agora, e pode não estar depois. Pode chover e pode não chover. O mais divertido é que você não sabe.

Ele se esticou um pouco. Olhou fixamente para frente como se passasse toda sua vida diante de seus olhos. Fitou a carta nas mãos por um tempo e logo jogou-a ao sabor do vento. Bebemos café naquela noite e em outras ocasiões em que a larva começa a mordiscar as beiradas. Hoje ele trabalha em uma construtora – de pontes – e eu me formei em medicina. E o que havia naquele envelope? Não, não era uma carta, mas um desenho. O desenho de uma árvore.

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