A Ideia Original

cigarro

 

As ideias estavam todas acumuladas em minha cabeça. Não conseguia parar de pensar nelas e em todas as histórias que havia em cada uma delas. Ideias pequenas que, se fossem bem construídas, se tornariam grandes livros. Sim, tento escrever um romance, mas não consigo me decidir sobre o que será. Esta deve ser uma das dúvidas mais enfadonhas de todas, quando se quer fazer algo, mas não se sabe o que é ao certo, como quando sentimos fome e não fazemos a menor ideia do que realmente queremos comer.

Busquei ajuda de um velho sábio, alguém que considero ser a inteligência em pessoa. Acreditei que uma conversa com um homem destes me traria respostas; doce ilusão. Conversas com pessoas inteligentes só te trazem mais dúvidas e não certezas.

                Bati três vezes na porta de madeira maciça, entrei e senti o cheiro do cigarro que ele segurava. Sentado à sua pesada mesa, de costas para uma enorme janela, ele me olhava num tom neutro, que não mostrava nem alegria nem tristeza. Haviam alguns livros sobre a mesa e mais uma pequena biblioteca em sua sala.

                Sentei-me à mesa, frente a frente com ele:

– Bom dia, – disse.

– Bom dia, – respondeu ele, parando de olhar para o amontoado de palavras naquele papel. – Já faz alguns anos que não o vejo, mas lembro de você, garoto. O que faz aqui nesta universidade?

– Vim apenas lhe pedir um conselho, e acredito que para o senhor seja muito mais simples que para mim.

– Se eu puder ajuda-lo, com certeza o farei. Conte-me então.

– Eu preciso de uma ideia para um romance. Tem várias ideias ótimas na minha cabeça, mas parece que nenhuma delas é boa o bastante.

– Bem, não é por que você tem muitas ideias que todas elas sejam boas, creio eu. Já tentou classifica-las e pensar em qual seria a melhor?

– Eu quero escrever algo que seja original. Que nunca tenha sido pensado. Algo completamente novo. Entende?

– Acho que entendo, mas não creio que você possa escrever algo original ou que alguém possa.

– Não entendi, senhor.

– Você não pode ter uma ideia original porque é impossível que você possa ou que alguém possa. O que você pode fazer é reproduzir e misturar coisas, encaixando-as de uma maneira elegante, como um arquiteto.

– Acho que entendi o ponto. Mas e se eu escrever sobre um unicórnio de duas cabeças? Ninguém nunca escreveu sobre um desses que eu saiba.

– Sim, sim! É bem provável que ninguém tenha escrito sobre um desses bizarros unicórnios de duas cabeças, mas mesmo assim não é uma ideia original. Mesmo que o unicórnio tivesse cinco cabeças e dois chifres em cada uma e ainda por cima cuspisse fogo, ainda assim não seria uma ideia original.

– Não entendo. Porque não é uma ideia original?

– Você misturou a ideia unicórnio com outras ideias de cabeças e chifres… E uma pitada de dragão. Você não teve uma ideia nova, você agrupou ideias, entende?

– Então, pela sua lógica, eu devo entender que na realidade nada, absolutamente nada que eu possa escrever será original?

– Exato! – Disse ele, com um enorme sorriso e me apontando o indicador. – Garoto esperto!

Ele deu dois tragos no cigarro e voltou a falar.

– Se você for pensar mais a fundo, verá que nada é original, mas uma mistura de coisas que vão evoluindo a medida que se misturam com outras coisas. Por um momento vamos pensar no universo como uma sopa de ideias e cada coisa que tem dentro é uma ideia diferente. Certo? – ele me olhava com aqueles olhos de coruja esperado aprovação. Eu assenti.

– Então pense na ideia anjo. Ela é uma ideia composta das ideias asa e criança robusta. – e eu ri na parte em que ele disse robusta. – Agora pense na ideia criança, ela é a soma das ideias olhos, cabelo, dentes, boca, dedos, mãos, pés, etc, ou seja, já é uma ideia composta. Vamos pensar então na ideia pele. Ela é composta de tecidos, que são compostos de células, que são compostos de uma porção de coisas menores que são compostas de outras coisas menores ainda. Se você fosse capaz de ir mais fundo nisso, talvez encontrasse a ideia original.

– Então no fim tudo parte de uma ideia original do universo?

– É bem possível que sim, mas é só uma ideia, se é que você entendeu o trocadilho. – Ele deu mais dois tragos no cigarro. – Por exemplo, você acha que Einstein criou a teoria da relatividade? Não, ele foi aquele inteligente o bastante para perceber aquilo que já estava lá. Ele olhou, entendeu e gritou: “Oi, pessoal! É assim que funciona!”.

– Entendi.

– Então, se entendeu, me responda: é possível criar pessoas?

– Não. – disse.

– Ótimo, e por que não?

– Pessoas são cópias umas das outras. Elas vão carregando cargas genéticas e se misturando umas com as outras. Elas não procriam, se reproduzem.

– Isso, meu jovem. Então concluímos com isso que todos os humanos vão agregando aqui e acola algumas outras ideias de vez em quando – que os biólogos chamariam de mutação – e vão se espalhando por ai até que fiquem bem diferentes uns dos outros e parecendo espécies diferentes. Por isso existem negros, brancos, amarelos e azuis. Bem, talvez os azuis só existam no cinema, mas enfim…

– Entendo.  Escrever também é uma ideia composta então?

– Entenda, a linguagem que a gente usa hoje não nasceu assim, aliás, ela nem nasceu de certa forma. Os homens da caverna imitavam sons da natureza. Começaram a misturar umas ideias com outras e surgiram as palavras, que são uma cópia de sons. Com o tempo eles perceberam que só aquilo não era o bastante para as informações que eles queriam passar, e começaram a copiar suas ideias com tinta, formando desenhos. Esses desenhos ficaram cada vez mais difíceis de explicar, e então precisavam de algo mais poderoso e, ao mesmo tempo simples. Então surge a escrita, que é uma cópia de desenhos pequenos para representar os sons que eles usavam. Depois essas palavras simples foram ficando simplórias demais para isso e foram mudando e se misturando até termos o que temos hoje. Você está então usando a mesma ideia que os homens da caverna já tiveram a muito tempo. Entendeu?

– Infelizmente, sim. Mas isso só me deixa cada vez mais maluco. Eu estou vendo todo o universo como uma porção de coisas que tem ligações umas com as outras baseadas em uma pequena e simples ideia original, mas o que é isso?

– Alguns pensam nisso como teoria das cordas, outros preferem atribuir isso a forças divinas; eu… simplesmente não sei. Alguma ideia pro romance?

– Vou escrever sobre unicórnios de duas cabeças!
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Um comentário em “A Ideia Original

  1. Que legal, creio que o sábio quis dizer: se a ideia é sua, ela é original. Você a fez nascer. Como Einstein pôs a funcionar e levou os outros com a sua ideia que partiram para outras ideias. Muito bem pensado… bem inteligente a forma como discorreu o assunto. Teoria das cordas?

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